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1580: DE DOM SEBASTIÃO AO FIM DA DINASTIA DE AVIS

Para nós, 1580 é um ano de cesura: o ano que muitos tratam como sendo o da perda da independência do reino, mas que pode ser entendido — de forma muito mais adequada às percepções doutrinais da época — como sendo o do início de uma união dinástica com os mesmos reis que reinavam em Espanha. Aquilo que a nós parece dado como adquirido é menos do que evidente para quem viveu o início daquele confuso ano — ou para quem nele morreu, como o poeta Camões. Para recolher os fios à meada é necessário vir atrás, aos reinados de Dom Manuel e Dom João III, e entender a sucessão de imbricadas alianças matrimoniais e imprevistas mortes de herdeiros do trono que deixaram Portugal à espera de um Desejado, ainda recém-nascido. É também necessário seguir a trajectória do curto reinado do rei Dom Sebastião. E é ainda preciso entender de que modo a resistência à unificação da Península Ibérica se corporizou em alternativas mais ou menos realistas ou místicas: desde o contra-reinado de António, prior do Crato, até às irrupções de falsos «dons sebastiões».

Ana Paula Megiani

Ana Paula Megiani (Votuporanga, Brasil, 1965) é, desde 2003, docente e investigadora em história ibérica no Departamento de História da FFLCH, Universidade de São Paulo. Escreveu os livros O jovem rei en­cantado: expectativas sobre o messianismo régio em Portugal (sécs. XIII‑XVI) e O rei ausente: festa e cultura política nas visitas dos Filipes a Portugal (1581‑1619). Organizou os volumes Inês de Castro: a época e a memória, O império por escrito e O Brasil na Monarquia Hispânica (15801668): novas interpreta­ções. É actualmente pesquisadora da Cátedra Jaime Cortesão do Instituto Camões na Universidade de São Paulo e membro da Cátedra de Estudos Luso‑Brasileiros da Universidade Autónoma de Lisboa. Em 2019 passou a coordenar o Finisterra_lab – Laboratório de Estudos sobre os Impérios Ibéricos, sediado na Universidade de São Paulo.