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Duas imagens fortes que deram título a livros de Alejandra Pizarnik explicitam a natureza desta poesia: a «árvore de Diana» é um processo alquímico que faz um mineral tomar a forma de um vegetal, enquanto a «extracção da pedra da loucura» (que conhecemos de um célebre quadro de Bosch) alude à crença medieval de que a demência se cura através da trepanação. A loucura surge nos escritos da poeta argentina como exasperação patológica de um distúrbio existencial, como choque entre desejo e ausência, corpo e solidão, despossessão e duplicação.
Que procedimento, pergunta‑se, conseguirá transformar o silêncio em linguagem, a claustrofobia em comunicação? Verbalmente claros, mas de significado enigmático, estes poemas em prosa e verso concentram-se em palavras obsessivas como espelho, noite, sombras, vento, chuva, infância, morte. Às coisas preferem o nome das coisas, e tratam as coisas como fantasmas dos nomes. Vertiginosos, desolados, intensos, os poemas de Pizarnik, escreveu o seu amigo André Pieyre de Mandiargues, «são belos animais um pouco cruéis, um pouco neurasténicos e ternos».
— Pedro Mexia

Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik nasceu em 1936 em Avellaneda, na região metropolitana de Buenos Aires, filha de emigrantes judeus da Europa de Leste.
Estudou filosofia, jornalismo e literatura. Em 1955, publicou o seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena, a que se seguiram La última inocencia (1956) e Las aventuras perdidas (1958). Entre 1960 e 1964 viveu em Paris, onde colaborou em revistas, traduziu Artaud, Michaux ou Bonnefoy, e contactou com Julio Cortázar ou Octavio Paz. Este último prefaciou-lhe o livro da maturidade poética, Árbol de Diana (1962). De regresso a Buenos Aires, Pizarnik publicou as suas obras mais conhecidas: Los trabajos y las noches (1965), Extracción de la piedra de locura (1968) e El infierno musical (1971).
Em 1972, internada num hospital psiquiátrico, suicidou-se, durante uma saída de fim-de-semana, com uma overdose de barbitúricos. Tinha 36 anos. Deixou inéditos muitos poemas e prosas, em castelhano e em francês.