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O livro que Fernando Pessoa lamentava já ter lido, por não poder voltar a lê-lo pela primeira vez.

«Antes de mais, deve registar-se o primeiro adjectivo que qualifica o Sr. Pickwick: imortal. Segundo nos diz o título completo do livro, os papéis que documentam a sua vida são póstumos – mas, o que é curioso, ele é imortal logo desde a primeira linha. Dickens está, claro, a ser irónico, mas a ironia contida naquele ‘imortal’ dura apenas umas dezenas de páginas – e de dias: muito rapidamente, o Sr. Pickwick tornou-se imortal a sério, quer no livro, quer fora dele. Os Cadernos de Pickwick foram publicados em fascículos entre 1836 e 1837. Em Outubro de 1837, o crítico da Quarterly Review registava que ‘menos de seis meses após a publicação do primeiro número, todo o público leitor falava’ das aventuras do Sr. Pickwick. Sobretudo depois do aparecimento de Sam Weller na narrativa, as vendas dos fascículos dispararam, deram origem a merchandising (polainas Pickwick, bengalas Pickwick, chapéus Pickwick, charutos Pickwick) e à formação de clubes Pickwick (que ainda hoje existem) em que cada membro adoptava o nome de uma das personagens do romance. Um leitor rebentou um vaso sanguíneo, de tanto rir, e os amigos lamentaram a sua sorte quando o médico o proibiu de prosseguir a leitura. Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, o ouviu suspirar: ‘Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Cadernos de Pickwick, graças a Deus.’ […]
Os Cadernos de Pickwick são, então, um romance heterogéneo a ponto de não ser considerado um romance, povoado de personagens que, apesar de tudo, não são exactamente personagens. À primeira vista, trata-se de uma escolha pouco feliz para inaugurar uma colecção de literatura de humor. No entanto, Os Cadernos de Pickwick foram e são um clássico instantâneo, uma referência na comédia de situação, de linguagem e de personagem, cuja influência se percebe em obras de todos os tipos – não apenas nas estritamente humorísticas. É um livro inocente sobre a inocência, em que tanto o protagonista como o autor vão, a pouco e pouco, deixando de ser inocentes. O eterno Sr. Pickwick, que começa por ser um pateta pomposo e ridículo, é, no final do livro, um homem bondoso e puro – e, no entanto, temos a sensação de que não foi ele quem mudou. As personagens mudam pouco ou nada, ao longo do romance (o Sr. Pickwick continua a ser um ingénuo bem-intencionado, o Sr. Snodgrass um péssimo poeta, o Sr. Winkle um desportista desastrado, o Sr. Tupman um pinga-amor celibatário), mas o autor e o leitor mudam. O sarcasmo de Dickens, e o nosso, transforma-se em admiração, embora o Sr. Pickwick se mantenha igual – como os deuses. Como diz Chesterton, ‘Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia’.»
— Ricardo Araújo Pereira

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Charles Dickens

Charles Dickens nasceu a 7 de Fevereiro de 1812, em Portsmouth, Inglaterra.
Em 1817 foi viver para Chatham, na região do Kent, aí permanecendo até 1822. Nesse mesmo ano mudou-se para Londres, onde viveu até 1860. Pertencente a uma família de classe média, Dickens foi obrigado a abandonar a escola aos 15 anos, indo trabalhar para uma fábrica depois de o seu pai ter levado a família à bancarrota e ter sido preso por dívidas. Mais tarde, trabalhou como empregado de escritório e como jornalista. Em 1836 casou-se com Catherine Hogarth, com quem teve nove filhos.
Para além da escrita, Dickens dedicou-se afincadamente à leitura pública de excertos das suas obras, actividade de que foi precursor e exemplo. Aliás, várias vezes aludiu à importância que tinha para si esta peculiar proximidade com o público e, aparentemente, as sessões eram sempre um êxito, devido às notórias qualidades do escritor nos âmbitos da oratória e da interpretação dramática. No total, houve 471 leituras públicas.
Considerado um dos escritores ingleses com mais apuradas qualidades humorísticas de todos os tempos e um dos maiores romancistas da história da literatura, Charles Dickens tornou-se uma das grandes forças motrizes da literatura do século XIX, tendo sido um influente porta-voz da consciência social do seu tempo. Alcançou em vida mais notoriedade e reconhecimento público do que qualquer outro escritor antes dele.
Charles Dickens foi um escritor prolífico e a sua obra é vastíssima. De entre os romances, destacam-se Oliver Twist (1838), Nicholas Nickleby (1839), David Copperfield (1850), Bleak House (1853), Hard Times (1854), Little Dorrit (1857), A Tale of Two Cities (1859) e Great Expectations (1861).
Os Cadernos de Pickwick foram primeiro publicados em fascículos mensais, entre 1836 e 1837. A primeira edição destes fascículos num só volume data de 1837.
Charles Dickens morreu a 9 de Junho de 1870, perto de Chatham, para onde regressara em 1860, tendo sido sepultado na Abadia de Westminster.