CAMINHAR NO GELO - Tinta da China
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«’No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.’ Assim começa Caminhar no Gelo. […] Outra pessoa apanhava de imediato um avião e estava em Paris numa hora e meia. Werner Herzog preferiu demorar três semanas, porque acreditava que quanto mais tempo demorasse mais tempo Lotte tinha para ficar boa. Ele confiava nos sonhos mais tresloucados, e nada impedia que aquela viagem de Inverno adiasse a morte de alguém.»
— Pedro Mexia

Werner Herzog

Werner Herzog, cujo verdadeiro nome é Werner Stipetić, nasceu em Munique a 5 de Setembro de 1942, filho de pais croatas. É um dos autores de referência do Novo Cinema Alemão, no qual se enquadram também Rainer Werner Fassbinder e Wim Wenders, entre outros.
Herzog desde cedo lidou com o abandono e com a inconstância. Quando regressou de um campo de prisioneiros de guerra, o seu pai abandonou a família, que acabou por mudar-se para Sachrang, pequena povoação na Baviera, para fugir aos bombardeamentos do fim da Segunda Guerra Mundial. Herzog e a família regressaram a Munique em 1954, partilhando um apartamento com Klaus Kinski, o actor com quem o cineasta viria a trabalhar mais intensamente.
Werner Herzog estudou História, Literatura e Música na Universidade de Munique e na Universidade de Duquesne, nos Estados Unidos. Durante esta época, viajou por vários países – México, Inglaterra, Grécia e Sudão.
Aos 14 anos, Werner Herzog iniciou-se no cinema, quando leu a entrada de uma enciclopédia sobre realização de filmes e roubou uma câmara de filmar de 35 mm da Munich Film School. Foi quanto bastou para se transformar num dos cineastas mais importantes do século XX. Na década de 1960, trabalhou à noite como soldador, numa fábrica de aço, para financiar os seus primeiros filmes. Em 1968, filmou a sua primeira longa-metragem, Herakles, galardoada com o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim. Werner Herzog é autor de 18 longas-metragens e de dezenas de curtas-metragens e documentários. Entre os seus filmes mais conhecidos, contam-se Nosferatu, o Fantasma da NoiteFitzcarraldoWoyzeckAguirre, a Ira de Deus e Cobra Verde. Ao longo da sua carreira, foi galardoado com vários prémios e distinções. Desempenhou também papéis como actor, tendo ainda assinado alguns trabalhos como argumentista. Dirigiu dezenas de óperas e algumas peças de teatro.
Escreveu, para além de Caminhar no Gelo, dois livros sobre o seu filme Fitzcarraldo. Com Paul Cronin, escreveu Herzog on Herzog e, com Lena Herzog, sua mulher, escreveu Pilgrims: Becoming the Path Itself.
Actualmente, vive em Los Angeles.