10%

«Nem todos podemos ser Marco Polo ou Freya Stark, e no entanto há milhões de pessoas a viajar. Os grandes viajantes, do presente ou do passado, constituem uma classe à parte, são profissionais sem igual. Nós somos amadores, e embora tenhamos os nossos momentos de glória também nos cansamos, os nossos espíritos fraquejam e sucumbimos ao rancor. Mas perseveramos, fazemos os possíveis para ver o mundo e damos as nossas voltas; vamos a todo o lado. […]
Este não é propriamente um livro de viagens. Depois de apresentar as minhas referências para que o leitor acredite que sei do que falo, faço um relato das minhas melhores viagens horrorosas, escolhidas a dedo entre uma ampla selecção, recordadas com ternura agora que fazem parte do passado. Nada faz melhor à auto‑estima do que a sobrevivência.
Não somos heróicos como os grandes viajantes, mas apesar disso nós, os amadores, somos uma raça bastante rija. Por muito horrenda que tenha sido a última viagem, nunca perdemos a esperança relativamente à próxima.»

Cinco Travessias do Inferno relata-nos as cinco «melhores horrorosas viagens» de Martha Gellhorn: pela China, Caribe, África, Rússia e Israel. Uma recordação de que nem todas as viagens têm de correr bem para resultarem em óptimas histórias.

Martha Gellhorn

Martha Gellhorn (1908‑1998) publicou cinco romances, catorze novelas e duas antologias de contos. Queria ficar para a História primeiramente como romancista, mas é recordada pela maioria das pessoas como impressionante correspondente de guerra e por algo que a deixava fula: o breve casamento com Ernest Hemingway durante a Segunda Guerra Mundial. Martha Gellhorn não tinha a mínima intenção de ser uma nota de rodapé na vida de outra pessoa, e tudo indica que assim não será. Desde a sua morte, já foram publicadas duas biografias da autora.
Enquanto correspondente de guerra, cobriu praticamente todos os grandes conflitos do século XX, desde a Guerra Civil Espanhola à invasão do Panamá pelos EUA em 1989. Para uma mulher, era um trabalho completamente inovador, e ela levou‑o a cabo assumindo um compromisso absoluto com a verdade. «Todos os políticos são chatos, mentirosos e falsos. Eu falo com pessoas», disse ela, ao explicar o seu interesse pelas vítimas civis da guerra, as baixas que não têm visibilidade. Martha Gellhorn foi uma das grandes correspondentes de guerra, uma das testemunhas mais importantes do século XX.
A vida de Gellhorn enquanto correspondente de guerra é bem ilustrada por dois incidentes. Depois de Hemingway lhe roubar a acreditação, Gellhorn embarcou clandestinamente num navio‑hospital a 7 de Junho de 1944 e andou a recolher feridos durante a invasão da Normandia; além disso, os militares americanos fizeram com que o visto para regressar ao Vietname lhe fosse recusado, de tão enfurecidos que estavam com as reportagens que ela fazia para o The Guardian.
Era uma mulher de opiniões fortes e possuía uma energia incrível. Embora se tenha recusado a cobrir a guerra da Bósnia quando já era octogenária, com a explicação de que já não tinha agilidade para isso, aos 87 anos foi para o Brasil fazer pesquisa e escrever um artigo sobre o homicídio de crianças de rua. Dactilografava mais por tacto, pois já via mal, e era impelida por uma compaixão pelos mais fracos e por uma curiosidade que a velhice não conseguiu esbater.