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DE JAMES A JAN: UM TESTEMUNHO REAL E CORAJOSO

Conundrum é um livro de culto, verdadeira referência na comunidade LGBTQI e baptizado de «canónico» pelo New York Times no que diz respeito a «memórias trans». A conceituada escritora britânica Jan Morris relata aqui a mais pessoal de todas as suas viagens, desde o tempo em que era James até à operação de mudança de sexo que fez em 1972, em Casablanca.

«Perguntam-me muitas vezes se não lamento nada, e eu respondo em tom frívolo que não. Mas é claro que lamento várias coisas. Lamento o choque que causei nas outras pessoas. Lamento o tempo perdido. Esporadicamente, lamento a perda da minha masculinidade, nos momentos em que gostava que os outros ouvissem a minha opinião. Lamento que tudo isto tenha sido necessário, assim como lamento os anos perdidos de plenitude, enquanto homem ou enquanto mulher, de que poderia ter gozado. Mas nem por um momento me arrependo da mudança em si. Não via outra alternativa, e a operação a que me submeti tornou-me feliz.»

Jan Morris

Jan Morris recebeu ao nascer, em 1926, na pequena cidade inglesa de Clevedon, o nome de James Humphrey Morris. Apesar da identidade masculina, percebeu «aos três, talvez quatro anos», que tinha nascido «no corpo errado». Estudou história em Oxford e aos 17 anos ingressou, como voluntário, no Exército inglês. Mais tarde foi integrado no 9.º Regimento de Lanceiros, célebre pelo seu carácter de clube selecto entre a elite militar britânica. Foi como oficial do Exército que conheceu Veneza, imediatamente após a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
Depois de deixar a vida militar integrou a redacção do jornal The Times. Nessas funções, acompanhou a primeira expedição britânica a alcançar o topo do Evereste, em 1953. Mais tarde, Jan Morris diria que a experiência enquanto jornalista «arruinou para sempre» qualquer possibilidade de vir a escrever ficção. Apesar disso, publicou dois romances e uma colectânea de contos. Publicou o primeiro livro, na sequência de uma visita aos Estados Unidos da América, em 1956. Daí em diante, escreveu relatos de viagens, livros de história e ensaios. No início dos anos 60 iniciou um tratamento hormonal, num longo período de transição do sexo masculino para o sexo feminino. Essa transição seria concluída em 1972, com uma operação cirúrgica, em Marrocos. A partir de então, James Morris passou a usar o nome de Jan Morris. Continuou, no entanto, a viver na companhia de Elizabeth Tuckiness, com quem se tinha casado em 1949 e de quem teve cinco filhos. Filha de pai galês e de mãe inglesa, Morris vive no País de Gales, sendo adepta do nacionalismo republicano galês.
Foi distinguida com o doutoramento honoris causa por duas universidades galesas, a de Gales e a de Glamorgan.
Em 2008, o The Times incluiu-a entre os 15 maiores escritores britânicos do pós-guerra.