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«Está para sair um livro com entrevistas suas…
Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras.»
— Luiz Pacheco, Sol, 2008

Neste livro estão reunidas entrevistas publicadas entre 1992 e 2008. A selecção é da responsabilidade de Luiz Pacheco e de João Pedro George.

Entrevistadores: Baptista-Bastos; Carlos Quevedo; Cláudia Galhós; João Paulo Cotrim; João Pedro George; Mário Santos; Paula Moura Pinheiro; Pedro Castro; Pedro Dias de Almeida; Ricardo de Araújo Pereira; Ricardo Nabais; Rodrigues da Silva; Rui Zink; Vladimiro Nunes.

Grande prosador, Luiz Pacheco foi também um dos melhores conversadores da imprensa. Estas entrevistas, publicadas nos últimos 20 anos em jornais e revistas, apresentam-nos uma das vidas mais agitadas da literatura portuguesa e são bem a expressão de uma inteligência desperta, desafiadora e implacável, batendo forte e feio em algumas personalidades da nossa vida pública.
Caso humano riquíssimo, impossível de resumir aqui, o mais sensato é dar-lhe a palavra: «Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco nasceu em 7 de Maio de 1925 e espera morrer no ano 2000. Está bem-disposto, porque está desempregado. Publicou muitos livros de outros autores. Não se lembra de publicar nada (dele) que prestasse. Escreveu muitas obras e perdeu quase todas. Teve três mulheres, nove filhos e netos, nem conta. Folhetos de sua autoria: Os Doutores, a Salvação e o Menino, Carta-Sincera a José Gomes Ferreira, O Teodolito, Os Namorados, O Cachecol do Artista. Teve 18 valores na admissão. O Urbano teve 12.»
(incluído na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia em 1965).

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco (1925-2008) nasceu em Lisboa. Foi filho único. Teve oito filhos.
Em 1936, entrou para o Liceu Camões. De entre alguns colegas, destacam-se José Cardoso Pires e Jaime Salazar Sampaio. De entre os professores, Rómulo de Carvalho, Luís da Câmara Reys e João de Brito. Entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, curso de Filologia Românica, isento de propinas, devido à excelente classificação no exame de admissão. Foi aluno de Andrée Crabée e Delfim Santos, entre outros. Nunca chegou a terminar o curso.
Colaborou n´O Globo e em Afinidades, com críticas literárias e traduções; José Cardoso Pires, Mário Dionísio e Joly Braga Santos haveriam de ser por ele convidados a escrever nestas publicações. Conheceu Mário Cesariny de Vasconcelos em 1946, encontro que determinaria a aproximação de Luiz Pacheco ao meio literário e intelectual. Viria mais tarde a conviver com quase todos os autores neo-realistas e surrealistas portugueses. Também neste ano, tornou-se funcionário da Inspecção dos Espectáculos e assinou a lista do MUD.
Em 1950, fundou a Contraponto, editora e distribuidora, que começou por publicar os Cadernos de Crítica e Arte, onde colaboraram Augusto Abelaira e Vasco Vidal, entre outros. A actividade editorial da Contraponto viria a destacar-se com a publicação de obras de Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Vergílio Ferreira, Herberto Helder e Natália Correia, bem como com a tradução de Ibsen, Molière, Jaspers, Büchner, Pirandello, Ionesco, Dürrenmatt, Tchékhov, Apollinaire, Kleist, entre outros.
Em 1965, foi julgado em tribunal (não pela primeira vez), pela participação na Antologia de Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia. Em 1966, a obra Crítica de Circunstância foi apreendida pela PIDE.
Ainda na década de 60, Luiz Pacheco começou a escrever para o Jornal de Letras e Artes, desenvolvendo, até ao final da década de 1990, uma colaboração significativa com um vasto número de publicações: Seara NovaJornal de NotíciasO SéculoDiário de NotíciasDiário de LisboaPúblicoDiário EconómicoLer, entre muitas outras. Desempenhou funções de revisor e tradutor em várias editoras: Portugália, Arcádia, Inquérito e Ulisseia.
Ao longo dos anos que se seguiram, degradou-se a vida social, económica e familiar, ficando Luiz Pacheco num isolamento quase total. Esteve internado em diversos hospitais, clínicas psiquiátricas e sanatórios, foi alugando quartos por Lisboa e viu as suas obras e o seu diário publicados em várias editoras e revistas. Em 1988, o texto Comunidade foi adaptado e levado à cena na Cornucópia. Em 1989, mudou-se para um quarto alugado em Setúbal e inscreveu-se no Partido Comunista Português. Viveu os anos seguintes entre lares e a casa dos filhos, concedendo entrevistas, sendo alvo de críticas, elogios e polémicas, com uma saúde precária e a lucidez intacta.