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À décima colectânea, Luís Quintais regressa aos seus lugares de sempre: às «ficções supremas» de Wallace Stevens como único sentido ainda disponível; à prosa enquanto território especulativo; às desumanidades de um século impiedoso, de que o Holocausto é exemplo, mais do que símbolo; à modernidade sem «aura» mas ainda com vestígios de uma aura, de um esplendor. Vivemos num tempo «depois da música», como se diz «depois da Deus»; mas depois da música, e por causa da música, fica ainda um fogo que arde e se vê, como em Bach, deus mortal, ou nas canções de Billie Holiday.
Depois da Música não desespera por completo da poesia, essa arte dos duzentos exemplares: a poesia é a resistente e discreta possibilidade de deixarmos registo de mais um dia na terra, da vertigem do mundo, das ilusões e derrotas, de filhos, amigos, mestres. Acto gratuito, imagem dentro das imagens, o poema faz com que «uma árvore» signifique «apenas uma árvore» ou muito mais que isso: a própria figura da poesia, «um horizonte de árvores negras / desenhado no chão da biografia, // uma forma de melancolia consentida».
— Pedro Mexia

Luís Quintais

Luís Quintais nasceu em 1968. Poeta, ensaísta e antropólogo. Publicou os livros de poesia A Imprecisa Melancolia (1995), Lamento (1999), Umbria (1999), Verso Antigo (2001), Angst (2002), Duelo (2004), Canto Onde (2006), Mais Espesso Que a Água (2008), Riscava a Palavra Dor no Quadro Negro (2010), O Vidro (2014) e Uma Arte do Degelo (2015). Ganhou o Prémio Aula de Poesia de Barcelona, o Prémio PEN Clube Português e o Prémio Fundação Luís Miguel Nava. Vive e trabalha em Coimbra.