ELIETE - Tinta da China

PRÉMIO OCEANOS 2019 – 2.º classificado

«O tempo era tanto mais lento quanto eu vivesse dentro dele e não no futuro ou no passado. Quanto mais presa ao presente, mais lento o tempo passava, mais feliz eu era. A tarde quente lá fora, nós os quatro, o Jorge, as miúdas e eu, quase nus sobre a cama desfeita, os corpos em ninhada sonolenta, pela janela entreaberta a aragem trazia arrepios e farrapos sonoros de coisas aladas, pássaros, vozes, insetos, músicas. Nesse tempo, nessa casa, houve alturas em que o tempo parou, parou mesmo, alturas em que fui imortal, eu cheguei a ser imortal. Ser feliz de forma plena era a maneira de experimentar a imortalidade. Mas sendo a felicidade provisória, era mortal, a imortalidade. […] Todas as famílias, as felizes e as infelizes, tinham segredos, todas as famílias sabiam que a verdade devia ser desprezada como qualquer outra minudência que amesquinhe a vida.»

Estar a meio da vida é como estar a meio de uma ponte suspensa, qualquer brisa a balança. A vida da Eliete vai a meio e, como se isso não bastasse, aproxima-se um vendaval. Mas este é ainda o tempo que será recordado como contendo em si, reconhecível, imparável, a mudança. Apesar de ninguém dar conta disso. Porque tudo parece normal. Deus está ausente ou em trabalhos clandestinos. De tempos a tempos, a Pátria acorda em erupções festivas, mas lá se vai diluindo. E a Família? 

Dulce Maria Cardoso

Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964. Publicou os romances Eliete (2018), O Retorno (2011, Prémio Especial da Crítica; Livro do Ano dos jornais Público e Expresso), O Chão dos Pardais (2009, Prémio PEN Clube Português e Prémio Ciranda), Os Meus Sentimentos (2005, Prémio da União Europeia para a Literatura) e Campo de Sangue (2001, Prémio Acontece; escrito na sequência da atribuição de uma Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura português). Os seus livros estão traduzidos em várias línguas e publicados em mais de duas dezenas de países. A tradução inglesa de O Retorno recebeu, em 2016, o English PEN Translate Award.
A antologia Tudo São Histórias de Amor (2013) reúne grande parte dos contos publicados em revistas e jornais. Alguns destes textos integram antologias estrangeiras, e o conto Anjos por dentro foi escolhido para a antologia Best European Fiction 2012, publicado pela prestigiada Dalkey Archive Press. Publicou ainda o livro Rosas (2017) e as histórias infanto-juvenis de Lôá, a menina-Deus (2014).
A obra de Dulce Maria Cardoso é estudada em universidades de vários países e tem sido objecto de adaptações ao cinema e ao teatro.
Em 2012, recebeu do Estado francês a condecoração de Cavaleira da Ordem das Artes e Letras.