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Impaciente, descrente, anti-épica, desconfiada de epifanias, a reconhecível voz autoral de Errático, terceiro livro de poemas de Rosa Oliveira, discute as coisas-em-si‑mesmas questionando os processos estilísticos e as construções teóricas que usamos para representá-las. Em vez da angústia da influência de Bloom, a «angústia da fluência»; em vez do correlativo objectivo de Eliot, o «ocaso cínico»; em vez da omnipotência da linguagem poética, a «incapacidade metonímica»; em vez do estilo como altivez, a nossa condição de «pobres criaturas flaubertianas». Lúdicos e disfóricos, os poemas convocam paisagens originais e mitologias inesperadas, algumas desgostosas, algumas paródicas, Viseu e «os anos 70», a infância e a morte, Heráclito e Luke Skywalker. Um «pensamento-sombra» ensombra tudo, transforma as coisas em referentes obsessivos mas inacessíveis. E no fim fica a pergunta: «o que faremos do tempo, única, insolúvel questão»? O que faremos do passado, ao qual ninguém regressa? Ou do futuro que, como avisou Leonard Cohen, talvez não seja radioso?
— Pedro Mexia

Cinza (2013) Prémio Pen Clube Primeira Obra
Tardio (2017) — Prémio Literário Fundação Inês de Castro

Rosa Oliveira

Rosa Oliveira nasceu em Viseu, em 1958. Publicou os ensaios Paris 1937 e Tragédias Sobrepostas: Sobre “O Indesejado” de Jorge de Sena. Foi leitora na Universidade de Barcelona e é professora no ensino superior politécnico.
Cinza, o seu primeiro livro de poesia (Tinta-da-china, 2013), foi galardoado com o Prémio PEN Clube Primeira Obra. Actualmente, vive em Coimbra com o filho.