ERRO EXTREMO - Tinta da China
20%

PRIMEIRO LIVRO DE CRÓNICAS DE MIGUEL TAMEN

Da defesa acérrima da liberdade de expressão ao repúdio absoluto do acordo ortográfico, da crítica feroz ao sistema educativo português ao desinteresse dos noticiários televisivos, da importância do café aos mistérios do exercício físico, passando pelo pau de selfie, o feng shui (ou melhor, chop suey), a misantropia, os rituais funerários, a batalha naval, a famigerada fuga de cérebros, o pequeno-almoço nas novelas portuguesas e uns certos assuntos «amor-de-mãe», há pouco que escape à malha apertada da análise certeira, irónica, muitas vezes corrosiva de Miguel Tamen.

«’Rita’, lêem alguns de nós com interesse no dentista, ‘acusa Sofia de não deixar Bernardo em paz. Com lágrimas nos olhos, Sofia agarra-a pelo braço e leva-a ao quarto; mostra-lhe o berço; Rita vai-se embora a cavalo, agastada.’ Trata-se de um conhecido episódio de todas as telenovelas portuguesas.
Coisas têm sido escritas sobre o tópico; pergunta-se com perplexidade de crocodilo como pode haver quem siga diariamente interacções complexas entre civis filmadas a uma luz que, em casas ou jardins, lembra sempre a de uma cervejaria. Não adianta no entanto exprimir incredulidade em relação a actos praticados alegremente por grandes quantidades de pessoas. Ninguém deixou nunca de ver uma única telenovela por causa de argumentos sociológicos ou políticos ou estéticos sobre os seus hábitos. Insultar os costumes da maioria é uma forma de loucura inútil.» 

Miguel Tamen

Miguel Tamen é professor de Teoria da Literatura na Universidade de Lisboa e director da sua Faculdade de Letras. Foi professor visitante na University of Chicago, e senior fellow no Stanford Humanities Center e no National Humanities Center. Escreveu dez livros, entre os quais Friends of Interpretable Objects (2001; tradução portuguesa: Amigos de Objectos Interpretáveis, 2003), Artigos Portugueses (2002; edição aumentada 2015) e What Art is Like (2012). Em 2020, editou O Cânone (Tinta-da-china, com António M. Feijó e João R. Figueiredo).