ESTADO NOVO E UNIVERSIDADE - Tinta da China
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A história de todos aqueles que, por convicções políticas, foram impedidos de exercer a docência universitária.

Não é possível abordar o problema da depuração política das universidades sem se compreenderem as relações do Estado Novo com as universidades. No projecto político, ideológico e cultural da «política do espírito» virá a ser atribuído um papel claramente periférico e subalterno ao saber académico, à cultura científica e às universidades de uma forma geral.

A Perseguição aos Professores conta a história de todos aqueles que, por motivos políticos, se viram impedidos de aceder à docência universitária, foram afastados dos seus centros de investigação, impossibilitados de progredir nas carreiras académicas ou compulsivamente exonerados das suas funções como investigadores ou professores das universidades portuguesas durante a Ditadura Militar e o Estado Novo.
A depuração política do corpo docente universitário ou de quem a ele pretendia aceder, quase sempre fundamentada em informações da polícia política, atingiu um largo espectro de investigadores ou docentes, muitos dos quais representavam, nos seus sectores – na matemática, na medicina, na economia, na física, na agronomia, nas ciências humanas –, o escol do pensamento científico português. A perseguição política desses elementos por parte de um regime que considerava a liberdade de opinião e de expressão, e portanto a liberdade científica, como incompatíveis com a segurança do Estado, acarretaria nefastas e duradouras consequências para o desenvolvimento científico em Portugal.
Muitos dos investigadores e docentes perseguidos pelas suas convicções políticas viram-se forçados ao exílio em vários países da Europa e da América Latina, ou nos EUA, onde livremente puderam exercer o seu múnus científico. E aí semearam a marca indelével do seu saber, deixando aos países que os acolheram aquilo que foram impedidos de oferecer ao seu.
Não parece possível abordar o problema da depuração política das universidades sem se compreenderem as relações do Estado Novo com o saber científico e académico e, portanto, com as universidades, depositárias tradicionais desse conhecimento e órgãos por excelência da sua reprodução. Tenhamos presente que no projecto político, ideológico e cultural da «política do espírito», delineado no rescaldo do plebiscito constitucional de 1933 com a criação do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), virá a ser atribuído um papel claramente periférico e subalterno ao saber académico, à cultura científica e às universidades de uma forma geral.

Cristina Sizifredo

Cristina Sizifredo (Lisboa, 1978) é investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É licenciada em História na FCSH e mestranda em História dos Séculos XIX e XX, na mesma faculdade. Tem participado em vários projectos de investigação nas áreas de História Contemporânea e da História de Portugal no século XX.

Fernando Rosas

Fernando Rosas nasceu em Lisboa em 1946. É professor catedrático jubilado no Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e foi presidente do Instituto de História Contemporânea da mesma faculdade. Desenvolve o seu percurso académico sobretudo em torno da História Contemporânea e da História de Portugal no século XX. Foi membro do conselho de redacção da revista Penélope — fazer e desfazer a História, e director da revista História.
Entre as obras que publicou contam-se: Salazar e os Fascismos (2019); Salazar e o Poder — A arte de saber durar (Prémio PEN Ensaio 2012); Lisboa RevolucionáriaHistória da Primeira República Portuguesa (com Maria Fernanda Rollo); Estado Novo e Universidade — A perseguição aos professores (com Cristina Sizifredo); História e MemóriaEstado Novo nos Anos Trinta — Elementos para o Estudo da Natureza Económica e Social do Salazarismo (1928-1938); coordenação de Portugal e o Estado Novo (1930-1960), vol. XII; Nova História de Portugal (dir. Joel Serrão e A.H. de Oliveira Marques); Estado Novo (1926-1974), vol. VII; História de Portugal (dir. José Mattoso); Portugal Século XX: 1890-1976: Pensamento e Acção PolíticaA Transição Falhada: o Marcelismo e o Fim do Estado Novo: 1968-1974 (coord. com Pedro Aires Oliveira).
Tem livros e artigos publicados em Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos da América e Brasil. Em 2006, foi condecorado pelo presidente da República com a Ordem da Liberdade.