10%

«Como se encontra o ponto de intersecção do intemporal com o tempo? Esta questão de Eliot é retomada por Rui Cóias, para quem o cruzamento da História com a paisagem sempre foi um tema decisivo. Os poemas de Europa tentam fazer ‘da memória a função do geógrafo’, não separando as coordenadas espácio-temporais, o futuro e o passado, o fugaz e o permanente. A natureza é convocada de um modo que lembra a grande poesia romântica inglesa ou alemã: como uma viagem, uma peregrinação, uma presença, um caminho do pensamento, enquanto o ‘eu’ atravessa campos, colinas, planícies, estepes, dunas, fragas, bosques. Há intensidades e augúrios, regressos impossíveis, e uma ‘gravitas’ muitas vezes ligada a um ‘tu’ e a um ‘nós’, biográficos talvez. E às odes seguem-se as elegias, com uma temporalidade específica (a Grande Guerra, a experiência terrível de soldados‑poetas como Trakl ou Owen) e um espaço físico que é também uma ideia (o Ocidente, ‘puro horizonte’, transformado em ‘terra nocturna’). Herdeira das antigas civilizações, das velhas cidades, a Europa desfaz-se nas trincheiras do Somme, unindo tragicamente o espaço e o tempo.»
—Pedro Mexia

Rui Cóias

Rui Cóias nasceu em Lisboa, em 1966. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, é pós-graduado em Ciências Jurídicas, jurista, e estuda Filosofia na Universidade Nova.
É autor dos livros A Função do Geógrafo (2000) e A Ordem do Mundo (2005), ambos editados pela Quasi, estando também publicado na Bélgica e em França. Integra várias antologias portuguesas e estrangeiras.