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«Intensificando um tom elegíaco que começou em Como se Bosch Tivesse Enlouquecido (2003), o novo livro de A.M. Pires Cabral relembra coisas esquecidas, coisas extintas, coisas que mais valera não relembrar, porque aconteceram há muitas décadas e agora é tarde. Que memórias são essas? São casas, árvores, raparigas, imagens que passaram em tempos pela retina de uns ‘olhos com que vimos tanta coisa’.
Mais pessimista do que o pessimista Pessanha, Pires Cabral medita melancolicamente sobre a idade, ‘telescópio de limitado alcance’ que muito acumula e pouco ensina, ‘inútil idade’. De que servem os versos, o que dizer aos filhos, que Deus é esse que já não se manifesta, que sentido tem tudo isto? O concreto torna-se então alegórico, o tempo é uma casa alugada, as árvores que julgámos imortais foram abatidas, as formigas mostram que ‘todo o comestível é um destino idóneo’. Job às avessas, incapaz de aceitar com resignação o inevitável, atormentado por uma insistente visita, o mofino Mister P, o poeta não entra docemente em noites escuras. Por mais que tenha de ‘varrer a eira’ ou ‘meter a viola no saco’, este sujeito inconformado e sarcástico não vai às boas. Faz má cara, deita a língua de fora, toca um requiem mas sob protesto.»
— Pedro Mexia

A.M. Pires Cabral

A.M. Pires Cabral nasceu em Chacim, Macedo de Cavaleiros, em 1941. Licenciou-se em Filologia Germânica. Foi professor e animador cultural. Publicou vários volumes de crónicas e de ficção, tendo ganho o Prémio Círculo de Leitores, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e o Grande Prémio de Literatura DST.
Como poeta, estreou-se em 1974 com Algures a Nordeste, a que se seguiram Solo Arável (1976), Trirreme (1978), Nove Pretextos Tomados de Camões (1980), Boleto em Constantim (1981), Os Cavalos da Noit (1982), Sabei por onde a Luz (1983), a antologia Artes Marginais (1998), Desta Água Beberei (1999), O Livro dos Lugares e Outros Poemas (2000), Como se Bosch Tivesse Enlouquecido (2003), Douro: Pizzicato e Chula (2004), Que Comboio é Este (2005), Antes Que o Rio Seque: Poesia Reunida (2006), As Têmporas da Cinza (2008), Arado (2009), Cobra-d’Água (2011), Gaveta do Fundo (2013) e Trade Mark (2018).
Pela sua obra poética, foram-lhe atribuídos os prémios D. Dinis, Luís Miguel Nava e PEN Clube. Gaveta do Fundo recebeu a distinção de Melhor Livro de Poesia em 2013 (SPA). Está traduzido em alemão, castelhano e italiano.