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PRÉMIO SPA 2014 MELHOR LIVRO DE POESIA

Depois de se ter estreado com um impressionante conjunto de poemas que iniciou o chamado «ciclo do Nordeste» (Algures a Nordeste, Boleto em Constantim, Douro: Pizzicato e Chula, Arado e Cobra-d’Água), A. M. Pires Cabral regressa ao tema de Trás-os-Montes, em tom elegíaco. A Terra Quente é agora uma terra envelhecida, despovoada, esquecida, cheia de silêncios e de escombros. Uma terra que chegou ao fim. Esta colectânea não desiste de uma nostalgia ainda «bucólica»: o rio Tua, as vinhas e furnas, a lavoura, a «guarda pretoriana» de gatos e cães, rãs e vacas, aves e pirilampos. A linguagem dos poemas é elevada ou demótica, sarcástica e quase metafísica, alegórica e zangada com as decisões de quem manda. Ou simplesmente assustada com a «temível, cerrada, intransitiva / noite dos homens». Porém, o tom disfórico não impede que o poeta se comova com procissões e magustos, resquícios de um tempo em que natureza e comunidade formavam uma união quase sagrada. Nos últimos anos, a discreta poesia de Pires Cabral alcançou um justo reconhecimento, por causa de alguns livros esplêndidos sobre a finitude. Chegou agora a vez do seu requiem transmontano.
— Pedro Mexia

A.M. Pires Cabral

A.M. Pires Cabral nasceu em Chacim, Macedo de Cavaleiros, em 1941. Licenciou-se em Filologia Germânica. Foi professor e animador cultural. Publicou vários volumes de crónicas e de ficção, tendo ganho o Prémio Círculo de Leitores, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e o Grande Prémio de Literatura DST.
Como poeta, estreou-se em 1974 com Algures a Nordeste, a que se seguiram Solo Arável (1976), Trirreme (1978), Nove Pretextos Tomados de Camões (1980), Boleto em Constantim (1981), Os Cavalos da Noit (1982), Sabei por onde a Luz (1983), a antologia Artes Marginais (1998), Desta Água Beberei (1999), O Livro dos Lugares e Outros Poemas (2000), Como se Bosch Tivesse Enlouquecido (2003), Douro: Pizzicato e Chula (2004), Que Comboio é Este (2005), Antes Que o Rio Seque: Poesia Reunida (2006), As Têmporas da Cinza (2008), Arado (2009), Cobra-d’Água (2011), Gaveta do Fundo (2013) e Trade Mark (2018).
Pela sua obra poética, foram-lhe atribuídos os prémios D. Dinis, Luís Miguel Nava e PEN Clube. Gaveta do Fundo recebeu a distinção de Melhor Livro de Poesia em 2013 (SPA). Está traduzido em alemão, castelhano e italiano.