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«Cento e vinte e quatro anos depois da sessão dos Lumière, já não nos assustamos quando o comboio avança na nossa direcção. Ou será que ainda nos assustamos? Habituámo-nos às imagens em movimento, mas continuamos assombrados com a sua força visual e emotiva, tão assombrados como em 1895. E porque entretanto transitámos de uma civilização do verbo para uma civilização da imagem, o cinema e as outras imagens audiovisuais confundem-se agora com o nosso imaginário. De modo que não sabemos o que vimos verdadeiramente visto ou o que imaginamos por termos visto.
Alguns dos textos desta edição confirmam uma evidência: a evidência de que o cinema é, desde a infância, uma das maneiras de conhecermos o mundo. Conhecemos o mundo cinematograficamente, quer dizer, incorporámos na nossa forma mentis uma linguagem, uma imagética, uma gramática, uma suspensão voluntária da descrença.»
— Pedro Mexia

«Você sabe quem foi Léon Bouly? Eu também não sabia. Pois Bouly foi o responsável por inventar um aparelho que batizou de cinematógrafo, do grego kinema, ‘movimento’, e graphein, ‘escrever’. Se faço aqui uma reverência a Bouly, não é só por ele ter criado o termo que mais tarde seria abreviado para cinema, mas também porque, ao criá-lo, ele foi a primeira pessoa a associar cinema e escrita. Esta edição é dedicada ao vasto e inesgotável território demarcado por Bouly: escritores que fazem filmes e cineastas que fazem livros; contos que parecem roteiros e roteiros que parecem contos; imagens filtradas por palavras e palavras filtradas por imagens; e, sobretudo, o cinema como mitologia, como mote e como método, a quem a literatura presta sua homenagem.»
— Gustavo Pacheco

Textos: Clara Rowland, João Rosas, João Miguel Fernandes Jorge, Letícia Simões, Manuel S. Fonseca, Marçal Aquino, Samir Machado de Machado, Aoko Matsuda, Colson Whitehead, Duncan Bush, Jeremy Sheldon, Jonathan Lethem, Roberto Bolaño, Todd McEwen, Veronica Stigger
Direcção de imagem: Daniel Blaufuks
Ensaios fotográficos: Inês d’Orey e Letícia Ramos

Gustavo Pacheco

Gustavo Pacheco nasceu no Rio de Janeiro em 1972. É doutor em Antropologia pelo Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou o seu primeiro livro, Alguns Humanos, em 2018.
Co-dirige a revista literária Granta em Língua Portuguesa, é cronista da revista Época e traduziu livros de Roberto Arlt, Julio Ramón Ribeyro e Patricio Pron. Como diplomata, trabalhou em Buenos Aires, na Cidade do México e em Brasília, onde vive actualmente.

Pedro Mexia

Pedro Mexia nasceu em Lisboa, em 1972. Licenciou-se em Direito pela Universidade Católica. É crítico literário e cronista, consultor do presidente da República para a área cultural, e integra o Governo Sombra. Foi subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema. Dirige a colecção de poesia da Tinta-da-china e co-dirige a revista literária Granta em Língua Portuguesa.

Publicou seis livros de poesia, antologiados em «Menos por Menos» (2011), a que se seguiu Uma Vez Que Tudo se Perdeu (2015) e Poemas Escolhidos (2018). Editou os volumes de diários Fora do Mundo (2004), Prova de Vida (2007), Estado Civil (2009), Lei Seca (2014) e Malparado (2017), e as colectâneas de crónicas Primeira Pessoa (2006), Nada de Melancolia (2008), As Vidas dos Outros (2010), O Mundo dos Vivos (2012), Cinemateca (2013), Biblioteca (2015) e Lá Fora (2018, Grande Prémio de Crónica APE). No Brasil, saíram Queria mais é que chovesse (crónicas, 2015) e Contratempo (poesia, 2016).

Organizou um volume de ensaios de Agustina Bessa-Luís, Contemplação Carinhosa da Angústia; a antologia Verbo: Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa [com José Tolentino Mendonça]; e O Homem Fatal, crónicas escolhidas de Nelson Rodrigues. Traduziu Robert Bresson, Tom Stoppard, Hugo Williams, Martin Crimp e David Mamet. Em 2015 e 2016 integrou o júri do Prémio Camões.