GRILO NA VARANDA - Tinta da China

O LIBERTINO REVELADO NA SUA COMPULSÃO EPISTOLAR,
com introdução e notas de João Pedro George.

Das cartas que Luiz Pacheco escreveu, durante 35 anos, ao amigo e mecenas Laureano Barros — a partir do hospital, da prisão, de quartos imundos, de casas de amigos ou quando ainda vivia, nas Caldas da Rainha, com parte da sua «Tribo» — emerge o impetuoso crítico de rompe-e-rasga, o escriba que combateu a PIDE, a censura e os ídolos das letras, o ser humano em luta para se realizar na sua paixão pela literatura, o solitário enraivecido pela dispersão dos bambinos, o homem que viveu de muitos cravanços, o doente crónico com pavor da morte… Em suma, o escritor que o país nos ofereceu no momento próprio.

«Escrevi as minhas cartas, com um prazer sem igual, na maior, à-vontade. Escrevi muito. Por necessidades da pedincha, aguentar a sobrevivência, conversar com Amigos distantes. Ou, se acantonado em locais de asilo forçado, invocar auxílios e apoios no Lá Fora. Escrevi cartas e postais que me desunhei, centenas e centenas. Há quem tenha espólios meus, já esteja a fazer negócio com isso. Ou a preparar-se. Acho óptimo. Dou-me os parabéns.»
— Luiz Pacheco

INCLUI DVD LAUREANO BARROS, RIGOROSO REFÚGIO

Luiz Pacheco

Luiz Pacheco (1925-2008) nasceu em Lisboa. Foi filho único. Teve oito filhos.
Em 1936, entrou para o Liceu Camões. De entre alguns colegas, destacam-se José Cardoso Pires e Jaime Salazar Sampaio. De entre os professores, Rómulo de Carvalho, Luís da Câmara Reys e João de Brito. Entrou na Faculdade de Letras de Lisboa, curso de Filologia Românica, isento de propinas, devido à excelente classificação no exame de admissão. Foi aluno de Andrée Crabée e Delfim Santos, entre outros. Nunca chegou a terminar o curso.
Colaborou n´O Globo e em Afinidades, com críticas literárias e traduções; José Cardoso Pires, Mário Dionísio e Joly Braga Santos haveriam de ser por ele convidados a escrever nestas publicações. Conheceu Mário Cesariny de Vasconcelos em 1946, encontro que determinaria a aproximação de Luiz Pacheco ao meio literário e intelectual. Viria mais tarde a conviver com quase todos os autores neo-realistas e surrealistas portugueses. Também neste ano, tornou-se funcionário da Inspecção dos Espectáculos e assinou a lista do MUD.
Em 1950, fundou a Contraponto, editora e distribuidora, que começou por publicar os Cadernos de Crítica e Arte, onde colaboraram Augusto Abelaira e Vasco Vidal, entre outros. A actividade editorial da Contraponto viria a destacar-se com a publicação de obras de Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Vergílio Ferreira, Herberto Helder e Natália Correia, bem como com a tradução de Ibsen, Molière, Jaspers, Büchner, Pirandello, Ionesco, Dürrenmatt, Tchékhov, Apollinaire, Kleist, entre outros.
Em 1965, foi julgado em tribunal (não pela primeira vez), pela participação na Antologia de Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia. Em 1966, a obra Crítica de Circunstância foi apreendida pela PIDE.
Ainda na década de 60, Luiz Pacheco começou a escrever para o Jornal de Letras e Artes, desenvolvendo, até ao final da década de 1990, uma colaboração significativa com um vasto número de publicações: Seara NovaJornal de NotíciasO SéculoDiário de NotíciasDiário de LisboaPúblicoDiário EconómicoLer, entre muitas outras. Desempenhou funções de revisor e tradutor em várias editoras: Portugália, Arcádia, Inquérito e Ulisseia.
Ao longo dos anos que se seguiram, degradou-se a vida social, económica e familiar, ficando Luiz Pacheco num isolamento quase total. Esteve internado em diversos hospitais, clínicas psiquiátricas e sanatórios, foi alugando quartos por Lisboa e viu as suas obras e o seu diário publicados em várias editoras e revistas. Em 1988, o texto Comunidade foi adaptado e levado à cena na Cornucópia. Em 1989, mudou-se para um quarto alugado em Setúbal e inscreveu-se no Partido Comunista Português. Viveu os anos seguintes entre lares e a casa dos filhos, concedendo entrevistas, sendo alvo de críticas, elogios e polémicas, com uma saúde precária e a lucidez intacta.