10%

UMA SELECÇÃO DE PEDRO MEXIA, QUE RESGATA UM GRANDE POETA HÁ MUITO AUSENTE DAS LIVRARIAS

«Europeu cultural e africano geográfico, Rui Knopfli viveu sob o signo da extra-territorialidade. Nascido no ‘país dos outros’ (a Moçambique portuguesa), entusiasta dos espaços africanos, Knopfli cedo se apercebeu dos iminentes winds of change. Progressista pessimista, denunciou a atmosfera colonial malsã e reconheceu a inevitabilidade e a necessidade da mudança, temendo ao mesmo tempo que fosse catastrófica para os portugueses de África, e para muitos africanos. Poeta culturalista, tomou de empréstimo motivos de Shakespeare e Camões, de Eliot e Pessoa, de Drummond e Sena. Escreveu meditações lúcidas e amargas sobre o Tempo e a História. Celebrou as acácias, as mangas verdes com sal, a Ilha de Moçambique, as matinés do Scala laurentino. Lamentou, comovido, sarcástico, apocalíptico, o paraíso perdido da infância e a impossibilidade de qualquer regresso. O seu estilo clássico-modernista, despojado, é coloquial e metafísico, jazzístico e especulativo. Traumaticamente “exilado” em Londres a partir de 1975, na sua cabeça viveu sempre em Lourenço Marques, pátria idealizada no meio de pátrias desconsoladas.»
— Pedro Mexia

Rui Knopfli

Rui Knopfli nasceu em 1932, em Inhambane, Moçambique. Fez estudos em Lourenço Marques e viveu uns tempos em Joanesburgo. Trabalhou como delegado de propaganda médica. Dirigiu o vespertino A Tribuna, coordenou páginas e suplementos culturais de jornais e revistas, escreveu crítica literária e cinematográfica, envolveu-se em polémicas.
Com João Pedro Grabato Dias, fundou os cadernos de poesia Caliban, onde traduziu, entre tantos, Eliot.
Publicou oito livros de poemas: O País dos Outros (1959), Reino Submarino(1962), Máquina de Areia (1964), Mangas Verdes com Sal(1969), A Ilha de Próspero (1972, com fotografias suas) e, já em edição portuguesa, O Escriba Acocorado (1978), O Corpo de Atena (1984, Prémio de Poesia do PEN Clube) e O Monhé das Cobras (1997). Memória Consentida: 20 Anos de Poesia 1959-1979 saiu em 1982, e a Obra Poética em 2003. Uma antologia, Uso Particular, é de 2017.
Assumido opositor ao statu quo colonial, Knopfli não se mostrou menos crítico quando a situação mudou, e em 1975 viu-se forçado a abandonar de vez Moçambique. Exercerá durante duas décadas as funções de conselheiro de imprensa na Embaixada de Portugal em Londres.
Faleceu em 1997. Está sepultado em Vila Viçosa.