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Almanaque perpétuo, ilustrado por Rafael Bordalo Pinheiro

Um almanaque típico do século XIX, com calendário, adágios, adivinhas, canções, pequenos contos e textos pseudocientíficos, mas cuja temática é inteiramente distinta…

«AOS CATURRAS
Vão gritar muito contra o PAUZINHO. Dirão que é imoral, que não tem graça e há-de até parecer-lhes perigoso. E contudo serão eles próprios, os púdicos, os castos, que hão-de comprar o livro e lê-lo de uma assentada. […] Por descargo de consciência, diremos, todavia, que o fim do PAUZINHO não é perverter, mas divertir. Composto para ser lido por homens, não vimos inconveniente em chamar as coisas pelo seu próprio nome, porque, afinal, digam o que quiserem, a porra há-de ser sempre porra, muito embora lhe inventem nomes mais ou menos sonoros.
E se ele for parar às mãos de alguma menina que, por excesso de ingenuidade, se apegue a ele como as velhas ao seu Santo António? Não será culpa nossa. Nós escondemo-lo bem, elas que façam outro tanto: guardem-no onde puderem e… regalem-se com ele!»

Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em Lisboa, em 1846.
Estudou na Academia de Belas Artes e no Curso Superior de Letras, foi actor dramático e fez cenários. Autor de uma obra vastíssima, foi o maior caricaturista português de sempre, privilegiando a imprensa periódica, em Portugal e no Brasil, na qual publicou centenas de trabalhos seus. Fundou e dirigiu O Calcanhar de AquilesO BinóculoA Berlinda e A Lanterna Mágica, onde criou a figura do Zé Povinho, estereótipo nacional português.
Esteve no Brasil entre 1875 e 1879, e ali colaborou em O Mosquito, fundou Pst! e O Besouro. De regresso a Lisboa, dirigiu O António Maria, cujo título era inspirado pelo nome do chefe do governo, José Maria de Fontes Pereira de Melo, e que também veio a chamar-se Pontos nos ii. Entre 1880 e 1902, publicou o Álbum das Glórias, uma espécie de galeria de figuras ilustres portuguesas ou relacionadas com Portugal, acompanhadas de textos a propósito.
Fez capas, ilustrou livros, folhas volantes, álbuns e brindes. Também foi ceramista, fundando em 1880 uma fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha. Fez peças decorativas, mas também caricaturas tridimensionais.
Rafael Bordalo Pinheiro privilegiou a imprensa periódica como veículo de comunicação, tanto os jornais como os almanaques de periodicidade mais espaçada, muito divulgados em Portugal a partir dos célebres almanaques publicados desde o século XVIII pela Academia das Ciências. No século XIX, generalizou-se a publicação desses almanaques, com a agenda mensal, as festas religiosas e profanas, conselhos práticos, adágios, canções, poemas, passatempos e textos mais ou menos literários, acompanhados de ilustrações.
Para além de O Pauzinho do Matrimónio – almanaque perpétuo, que data de 1879, Bordalo Pinheiro participou em inúmeros almanaques, quer com textos, quer com ilustrações. O primeiro foi o Almanaque das Gargalhadas, lunático, profético, cómico, poético, satírico e burlesco (1870), seguindo-se, entre muitos outros, o Almanaque das Artes e Letras, o Almanaque de Caricaturas para 1874, o Almanaque dos Teatros e o Almanaque Bijou.
Rafael Bordalo Pinheiro morreu em Lisboa, em 1905.