QUANDO O DIABO REZA - Tinta da China
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Quando um galdério tem uma ideia brilhante partilha-a logo com outro vadio. Colectivização intelectual. Uma grande ideia fica a secar se não for disponibilizada. E como não há dois sem três, estende-se a rede e monta-se a urdidura. Vala grande, saltar de trás. Ponderadas as valências de cada factor e os recursos disponíveis, o projecto avança, científico e inseguro.
Quando duas irmãs, já entradas na vida, sonham com teres e haveres, mundos melhores, segurança de estado e paz de espírito, o destino costuma intrometer-se, turvar os planos, rasteirar os desígnios. Dessas contrariedades é feita a literatura que se dá mal com os harpejos dos anjos nas nuvens e prefere o Diabo, sempre atrás da porta, vigilante, até a rezar.
Quando um ancião rabugento anda por aí a bengalar à solta, ocorre a alguns visionários que ele está mesmo a pedi-las.

Na imprensa:
«Este romance de Mário de Carvalho faz da linguagem uma festa. (…) O romance é de uma grande ‘impureza’: alia a escrita da ficção narrativa à escrita dramática e à escrita para o guião cinematográfico. Um texto com um fortíssimo domínio de si, que a todo o momento se revela consciente dos seus recursos e dos seus efeitos.»
— António Guerreiro, Expresso

«Mário de Carvalho continua a escalpelizar a ‘fauna humana’ sem dó, mas (e é essa a novidade) com piedade. […] Por meio do indirecto livre e da reinvenção do linguajar do bas-fond lisboeta, o contador desta história dá-nos a ver, justamente quando exibe os seus ridículos e nos convida ao riso, o seu estranho amor por uma fauna escassamente amorável. Como se a arte do romance fosse justamente essa: a de pôr o diabo a rezar por nós.»
— Osvaldo Manuel Silvestre, Público

«Vadios e vadiagens reunidos num verdadeiro festim. Mário de Carvalho até poderia escrever sobre a vida sexual das moscas da fruta, a arte de coser redes de pesca ou o funcionamento da bolsa de valores de Tóquio. Fosse como fosse, brilharia a escrita, esse manejo da língua portuguesa que é sempre um verdadeiro festim, um antecipado regalo.»
— José Mário Silva, Ler

Mário de Carvalho

Mário de Carvalho (Lisboa, 1944), um dos mais aclamados escritores portugueses, estreou-se em 1981 como ficcionista: Contos da Sétima Esfera inicia um percurso que passa pela escrita de teatro e de cinema, pela crónica e, sobretudo, pelo romance.
Está editado no Brasil e traduzido em espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, grego, búlgaro e croata. A sua obra mais conhecida é o romance histórico Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, galardoado com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1995), com o Prémio Fernando Namora (1996) e com o Prémio Pégaso de Literatura (1996). O livro Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina foi galardoado com o Grande Prémio de Literatura ITF/DST (2005). Em 2009, o autor recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra.