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Por ter frequentado colégios religiosos em criança, o autor habituou-se a ouvir avisos de sacerdotes: «Não se diz essa palavra», «Com esse assunto não se brinca», «Essa figura é sagrada». Agora que é velho, ouve os mesmos avisos da boca de outros sacerdotes — sobre outras palavras, outros assuntos e outras figuras, mas os avisos são exactamente os mesmos. O puritanismo, a aversão ao riso, a vontade de castigar e a convicção de que o castigo é aplicado por juízes infalíveis, também.

Quanto a novidades como o brunch, as caixas de comentários de jornais online, a moderna utilização do adjectivo «brutal», o pensamento positivo, as notícias de lifestyle, e todos os meios de comunicação inventados depois do telégrafo, o autor é igualmente reaccionário. Com dois cês, como deve ser.

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira (Lisboa, 1974) é licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, e começou a sua carreira como jornalista no Jornal de Letras. É guionista desde 1998. Em 2003, com Miguel Góis, Zé Diogo Quintela e Tiago Dores, formou o Gato Fedorento. Escreve semanalmente na Visão (Portugal) e na Folha de S. Paulo (Brasil) e é um dos elementos do Governo Sombra (TSF/TVI24). É co‑autor e apresentador de Gente Que Não Sabe Estar (TVI).
Com a Tinta‑da‑china, publicou seis livros de crónicas — entre os quais, Novas Crónicas da Boca do Inferno (Grande Prémio de Crónica APE 2009), Reaccionário com Dois Cês (2017) e Estar Vivo Aleija (2018) —, além de três volumes de Mixórdia de Temáticas e um ensaio: A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar (2016, também publicado no Brasil). No Brasil está ainda publicada a colectânea de crónicas Se não entenderes eu conto de novo, pá (Tinta‑da‑china, 2012).
Coordena a colecção de Literatura de Humor da Tinta‑da‑china, que publicou livros de Charles Dickens, Denis Diderot, Jaroslav Hasek, Ivan Gontcharov e José Sesinando, entre outros.
É o sócio n.º 12 049 do Sport Lisboa e Benfica.