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Assombrações, assombros, monstros, monstruosidades vulgares, eis algumas das criaturas que povoam a mais recente colectânea de Eucanaã Ferraz. A natureza de tais figuras, incluindo a sua natureza histórica e ontológica, é a mais diversa. Há funâmbulos, gémeas siamesas, cães bicéfalos, «hóspedes» nocturnos ou emanações do remorso e da desgraça como La Llorona. E também membros-fantasma, tragédias em fait-divers jornalísticos, escuras sombras brasileiras. Em qualquer dos casos, a inquietude e a disforia são evidentes, de tal modo que até as bem-aventuranças bíblicas se vêem impugnadas: «Pouca sorte têm os pobres de espírito / porque foram expulsos do reino // […] Pouca sorte têm os misericordiosos / porque foram devolvidos à própria sorte». Multímodo, irrequieto, o livro inclui igualmente experimentações formais e musicais, poemas conjugais, homenagens portuguesas, mas há um espectro pertinaz que o assombra. E até pode ser o espectro material e comprovável da idade, ou do tempo, como esses retratos sem retoques, retratos com erro, e verdadeiros talvez por causa dos seus erros: «o que vibrava agora é vidro opaco / agora é o tempo do verso estragado / pela ilusão de nos bastarmos nele».
— Pedro Mexia

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. É professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor de literatura do Instituto Moreira Salles.
Publicou oito livros de poemas, entre os quais Desassombro(2002, Prémio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), Rua do mundo (2004), Cinemateca (2008, Prémio Jabuti), Sentimental (2012, Prémio Portugal Telecom para Melhor Livro de Poesia) e Escuta (2015). É também autor de poesia infanto-juvenil.
Organizou livros e antologias de e sobre Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso e Sophia de Mello Breyner Andresen. Várias das suas obras foram editadas em Portugal, pelas Quasi, e a Imprensa Nacional – Casa da Moeda publicou em 2016 o volume Poesia (1990-2016).