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Este livro recupera memórias de dominação e de resistência a partir das histórias de vida de várias mulheres que trabalharam como «criadas para todo o serviço». Um trabalho pioneiro sobre a condição servil em Portugal entre 1940 e 1970.

«Até chegar aqui, fui-me cruzando com as indicações e regras produzidas pelas organizações femininas do Estado Novo ensinando às jovens portuguesas que as suas criadas mereciam caridade, voz firme e olho vivo. Rica em metáforas políticas sobre a definição do valor de um indivíduo a partir do seu lugar de nascimento, a criada de casa era julgada pela desobediência, preguiça, sujidade e mania, para referir apenas os atributos mais incisivos.
Procurei neste livro esclarecer as formas de relacionamento dos criados com os patrões, a natureza dos conflitos e os códigos de tratamento, as origens sociais, os hábitos, os usos do corpo, a linguagem, entre muitos outros aspectos.
O que sabemos para além de um conjunto de rasgos de criação literária que ficcionaram a vida das criadas de servir no contexto do século XX português? Na literatura, no cinema e na dramaturgia popular encontrei muitas vezes densidade psicológica atribuída a estas personagens, mas faltava uma interpretação estrutural que dinamitasse ou, pelo contrário, sustentasse as construções sociais da trabalhadora servil doméstica.»

Inês Brasão

Inês Brasão (Caldas da Rainha, 1972) é doutorada em Sociologia pela Universidade Nova de Lisboa. Com actividade docente desde 1999, tem publicado nos domínios da sociologia da cultura, da história do corpo e das estruturas da sociedade portuguesa.
É autora de Dons e Disciplinas do Corpo Feminino: Os discursos sobre o corpo no período do Estado Novo, obra premiada pela Comissão para a Condição Feminina em 1998. É também co­-autora de Leitores de Bibliotecas Públicas e de Comunidades de Leitura: Cinco estudos de sociologia da cultura.
Mais recentemente, dirigiu a sua atenção para o estudo dos subalternos, com particular destaque para uma reconstituição da história das criadas domésticas em Portugal, tema que tem merecido crescente lugar no debate sobre as estruturas da sociedade portuguesa.