«O que arde também cura. Quando, neste livro, nos deparamos com relâmpagos, brasas e incêndios, detectamos igualmente uma ideia de restabelecimento ou terapia, que se parece, aliás, com o seu avesso: uma doença febril, convulsiva, violenta. Os poemas de Cláudia R. Sampaio são disfóricos mas reactivos, respondem ao mundo e aos ataques do mundo, muitos deles sujos, asquerosos. Esse imaginário quase-abjeccionista não é uma pose, uma auto-indulgência, é a convicção de que, apesar de estarem ‘acima das condições atmosféricas’, os poemas têm cabeça e têm corpo, ambos amotinados, complicados. Anotações citadinas confirmam então que os outros talvez sejam mesmo o inferno; elegias domésticas transformam os pais em criaturas mitológicas, terríficas; e poemas de perda e desejo combinam imagens agressivas e anáforas surreais-românticas. Ver no Escuro é uma sequência sobre o facto de estarmos vivos, ou antes, sobre a consciência e ‘infra-consciência’ desse facto. Consciência que é um desassossego pessoano, uma exasperação tenebrosa, uma ‘melancolia aflita’.»
— Pedro Mexia

Cláudia R. Sampaio

Cláudia R. Sampaio nasceu em 1981, em Lisboa. Em 2014 publicou o seu primeiro livro de poesia, Os Dias da Corja (Do Lado Esquerdo), seguindo-se A Primeira Urina da Manhã (Douda Correria) em 2015.
Desde então, tem colaborado em várias revistas e antologias de poesia. Vive em Lisboa com as suas duas gatas.